Este mês faz três anos que o Mapeando está no ar: foi em junho de 2011 que publiquei meu primeiro relatório mensal para os doze signos, data especialmente escolhida para que a mensagem se espalhasse como sementes ao vento pela rede mundial dos computadores. O Mapeando nasceu sob o signo de Gêmeos, com ascendente em Virgem e Lua em Libra.
Mas o momento era promissor para que eu o fizesse, a astrologia florescia na psique coletiva, sucesso que se deve em grande parte à sua divulgação na internet. Hoje a astrologia é popular, está na mente e nos corações das pessoas, nas conversas desde as mais íntimas até às de mesa de bar, nos favoritos dos PC’s mundo afora, ferramenta de autoconhecimento e de construção de identidades, de diagnóstico e planejamento de vida, recurso disponível para a realização dos potenciais individuais e coletivos. Nunca antes na história a astrologia teve um alcance desse porte, e isso é algo que acontece agora depois de um longo período de negação, quando ficou restrita a privilegiados círculos.
Aos amantes da astrologia pode parecer absurdo que este saber tenha sido desconsiderado como legítimo por tanto tempo. Por quê? Porque o mundo ficou desencantado.
Em sua condição primordial, a humanidade possuía um conhecimento instintivo da unidade sagrada do mundo. O homem percebia o mundo natural que o rodeava como impregnado de sentido, cujo significado era ao mesmo tempo humano e cósmico. Percebia-se humano como um microcosmo dentro do macrocosmo, que participava da realidade exterior e estava unido ao todo por vias tangíveis e invisíveis.
Para o ser primordial, a anima mundi era uma matriz de sentido encarnado. A psique humana estava embutida na psique do mundo, suas operações se expressavam em linguagem simbólica, o significado fluindo entre interior e exterior, a comunicação direta em um processo de participação mística.
Mas a evolução da consciência humana é um relato da gradual separação da humanidade em seu estado original de integração com a dimensão espiritual. A princípio, a diferenciação do Eu sofreu influência da evolução da religião, particularmente no contexto ocidental. O homem passou a depender de uma revelação divina transcendental, criadora do universo e detentora de seu sentido. Um Sujeito divino auto-subsistente que criou o mundo como objeto, no qual se desenvolve o sujeito humano e sua história por Ele determinada.
Em seguida, veio o apogeu do logos humano com o surgimento da ciência moderna e do individualismo a partir do Renascimento. O que caracteriza a mente moderna é sua tendência a experimentar a separação entre um Eu subjetivo e um mundo exterior objetivo. O cosmos, cindido do ser humano, é então considerado impessoal, como se o universo fosse puramente mecânico e desprovido de finalidade. Todo o sentido que há lá fora não passaria de uma mera projeção do nosso interior.
O curso da história produziu uma profunda cisão entre a humanidade e a natureza. Este desenvolvimento coincidiu com a crescente exploração destrutiva desta (árvore? É apenas madeira!), a devastação das culturas tradicionais indígenas (é primitivo!), a perda de fé nas realidades espirituais (como confiar em instituições regidas por homens tão falhos quanto nós?) e um estado cada vez mais miserável da alma humana, que se sente isolada, superficial e vazia.
Falando assim, parece que todo o desenvolvimento humano foi igualmente desprovido de sentido e nada de bom resultou. Ora, é claro que não, isso seria cair num maniqueísmo improdutivo. Enquanto o ser humano se apropriava da inteligência, alma e finalidade que antes percebia no mundo, foi ganhando substância, distinção e uma crescente autonomia criativa, já que o sentido tornou-se mais maleável à sua vontade. O ser humano tentou se tornar dono da própria vida. Mas parece que estamos chegando ao limite dessa situação, porque alguma coisa está faltando.
A mente pós-moderna tem tentado esboçar uma nova compreensão da realidade, que inclua a imaginação como mediadora de toda experiência e conhecimento e maior consciência do poder do inconsciente. Afinal, o homem também está desencantado: é um mero objeto de forças materiais e causas alheias a si mesmo, um marionete sócio-biológico, um egoísta, uma máquina produtiva inconsciente de seus próprios recursos.
E é nesse contexto que a astrologia renasce, ainda mais forte, não porque ela é uma verdade absoluta, mas simplesmente porque é um sistema simbólico que nos reconecta ao universo e restabelece o fluxo entre interior e exterior. Simplesmente porque os símbolos são a chave para o inconsciente, e não poderia ser o inconsciente a chave para o universo? A astrologia renasce porque precisamos dela, porque pode nos ajudar a recuperar o homem primordial que ainda vive em nós, soterrado por camadas e camadas de história, mas vibrante, tentando encontrar o seu lugar no mundo. A astrologia renasce porque precisamos experimentar o sentido por nós mesmos, porque precisamos, sim, viver em um mundo encantado.
Por isso, eu não poderia estar mais feliz por viver nesse contexto, por ter me deixado conduzir por esse saber, por ter feito dele o meu ofício e por ter assumido a responsabilidade de disseminá-lo com amor. A festa de três anos do Mapeando é minha, mas também é sua que me lê sempre que pode. Dê-me a sua mão e brindemos!
* O análise histórica deste texto foi baseada no estudo de Richard Tarnas em Cosmos and Psyche

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